É engraçado como ao ler "O diário de Anne Frank", escrito por uma menina numa situação completamente oposta à minha e há tanto tempo atrás, eu me consigo identificar com ela. Anne Frank, refere várias vezes que se sente deslocada, incompreendida, num lugar errado até. Nem com a própria familia se identifica. Daí refugiar-se nos livros e na escrita, tal como eu.
Nunca tinha ido a um velório ou a um funeral. Já sabia que não ia ser agradável, mas nunca esperei que fosse tão mau. Especialmente o velório. O propósito do velório não é seguido, as pessoas vão lá e só falam umas com as outras, das banalidades da vida - o que me irrita. Eu percebo que estar lá o tempo todo a falar do sucedido seja dificil e suponho que as pessoas se tentem distrair mas sendo assim, para que toda aquela "cerimónia" (que nome é que se dá a isto? cerimónia soa tão errado).
Posso não ter conseguido estar na sala onde estava o caixão, ou ter destapado para "me despedir" ou ter chorado e gritado. Ou melhor, não o fiz à vista dos outros. Sentei-me no meu canto, sozinha e calada. Quando ninguém estava a ver, deixei que as lágrimas caissem. A minha ideia de despedida, foi feita tanto atraves das palavras como de pensamentos.
No teu funeral, só eu ia de preto. Havia pessoas com peças de roupa preta, mas totalmente, apenas eu. Ao principio estranhei até a avó dizer "ela não queria que eu me vestisse de preto" e pensei se te desagradaria que eu estivesse de preto. Mas por outro lado, eu estava de vestido e eu sei que sempre me adoraste ver de vestido.
É mais fácil estar sozinha, chorar sem ninguém ver. Não consegui estar lá quando abriram o caixão, sempre que vejo a avó chorar só me apetece fugir quando sei que tenho de ficar e dar-lhe força. Tenho 16 anos (quase nos 17) e era de supor que já fosse crescidinha para estas coisas. Mas não sou. A verdade é que não sou e não sei lidar com isto. Aposto que ninguém sabe mas fazem um trabalho melhor que o meu.
Já li diversos livros em que as pessoas escrevem para os falecidos e, embora sempre tenha achado que fazia sentido, agora que o faço acho ainda mais. É a única forma que eu encontro para aceitar esta situação. Mal choro, acho que ainda estou em choque e tenho a sensação que é daqui a uns dias que vai realmente doer. Adorava preparar-me para isso mas novamente, não há maneira.
Percebo-te Anne Frank. Percebo o que sentias quando dizias que te sentias deslocada, eu também me sinto assim. Percebo que escrevesses, sabendo que ninguém iria ler as tuas palavras (embora tenham sido lidas por praticamente todo o mundo). Ou talvez, se aquela história da reencarnação é verdade, talvez eu tenha sido tu e daí perceber-te tão bem. De qualquer maneira, aposto que nos teríamos dado bem.
Não consigo parar de pensar no que estava escrito nos folhetos ou o que quer que se chama aqueles papelinhos e que foi dito pelo padre na tua missa - que tenho de referir que foi realmente bonito - e sendo assim, resolvi passa-lo também para aqui.
A morte nada é
Eu estou apenas do outro lado
Eu, sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
continuaremos a ser.
Chamem-me como sempre me chamaram.
Falem-me como sempre me falaram.
Não mudem o tom da vossa voz,
não façam ar solene ou triste-
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir.
Brinquem, sorriam, pensem em mim. Que
o meu nome seja pronunciado em casa
como sempre foi: Sem qualquer ênfase.
Sem qualquer sombra.
A Vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O "fio" não foi cortado.
Porque é que eu estando longe do vosso
olhar estaria longe do vosso pensamento?
Espero-vos, não estou muito longe,
somento do outro lado do caminho.
Como vêem
está tudo bem.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Ester
Toda a gente tem um nome que nao gosta, um nome com o qual os colegas gozam e do qual se envergonham. Supostamente o teu, era o meu nome que se enquadrava nessa categoria. Mas eu nunca o vi dessa forma. Desde pequena, quando gozavam com o nosso nome, eu simplesmente sorria e dizia "é o nome da minha bisavó e tenho muito orgulho em ter o mesmo nome". Apesar de ser um nome invulgar, era impossível eu nao o amar, como te amo a ti.
Apesar das inúmeras rugas que se observam na tua cara, eu sempre te achei linda. Os teus olhos amáveis, as tuas mãos frágeis, a tua pele que cheirava sempre a creme de rosas que tu insistias em por sempre, os teus braços magros que me envolviam e que ultimamente, pareciam nao me querer largar, como se fosse um ultimo abraço.
São muitas as recordações que eu tenho de ti, sempre que ouço o nosso nome, vem-me uma nova memória. Lembro-me de ser pequena e andar sempre a cantarolar e a dançar pela sala e tantas vezes que já estava cansada mas continuava a fazê-lo, só para ver o teu olhar e o teu sorriso babados. As vezes, perguntavas-me se eu já tinha ido ao baile e dizias-me que tinha de levar um bom rapaz e que tinha de ser bonito e tratar-me bem, eu ria-me e dizia-te que já nao haviam bailes e que ia arranjar o melhor rapaz que houvesse e que serias a primeira a conhece-lo. Um destes dias, vieste-me perguntar se eu tinha namorado e sem esperares que eu respondesse acrescentaste "tens de arranjar um bom rapaz" e eu sorri novamente e disse "claro que sim e vais ser a primeira a conhece-lo" e tu pegaste-me na mao e olhaste para mim: "posso já nao estar aqui quando isso acontecer". Sinceramente já nem sei se o disseste em voz alta ou se foi apenas o teu olhar que me transmitiu a mensagem. Só sei que me ensinou o significado da expressão "partiu-me o coração".
Tenho de te pedir desculpa. Desculpa por ultimamente nao te ter ido visitar com muita frequencia. Das ultima vezes que fui, contigo ja tao franquinha, quase sem te conseguires mexer, e a avo te perguntou "sabe quem ta aqui?" e tu disseste "a minha menina" tao baixinho e como se te tivesse custado o mundo e ao mesmo tempo tao feliz... Deu cabo de mim. E eu sou fraca. E nao consegui suportar ver-te assim. Desculpa. Eu só nao queria que me visses chorar, nao queria causar-te mais dor do que aquela que transparecia pelo teu corpo. Apesar das inúmeras rugas que se observam na tua cara, eu sempre te achei linda. Os teus olhos amáveis, as tuas mãos frágeis, a tua pele que cheirava sempre a creme de rosas que tu insistias em por sempre, os teus braços magros que me envolviam e que ultimamente, pareciam nao me querer largar, como se fosse um ultimo abraço.
São muitas as recordações que eu tenho de ti, sempre que ouço o nosso nome, vem-me uma nova memória. Lembro-me de ser pequena e andar sempre a cantarolar e a dançar pela sala e tantas vezes que já estava cansada mas continuava a fazê-lo, só para ver o teu olhar e o teu sorriso babados. As vezes, perguntavas-me se eu já tinha ido ao baile e dizias-me que tinha de levar um bom rapaz e que tinha de ser bonito e tratar-me bem, eu ria-me e dizia-te que já nao haviam bailes e que ia arranjar o melhor rapaz que houvesse e que serias a primeira a conhece-lo. Um destes dias, vieste-me perguntar se eu tinha namorado e sem esperares que eu respondesse acrescentaste "tens de arranjar um bom rapaz" e eu sorri novamente e disse "claro que sim e vais ser a primeira a conhece-lo" e tu pegaste-me na mao e olhaste para mim: "posso já nao estar aqui quando isso acontecer". Sinceramente já nem sei se o disseste em voz alta ou se foi apenas o teu olhar que me transmitiu a mensagem. Só sei que me ensinou o significado da expressão "partiu-me o coração".
É demasiado difícil ver-te assim, mesmo sabendo que já tens 96 anos. Os médicos dizem que temos de nos preparar, mas isso é uma coisa que eu nunca vou saber fazer. Mas ambas sabemos que é o melhor para ti. Nao te preocupes, eu vou cuidar bem do nosso nome, com todo o carinho. Descansa em paz.
Adoro-te bisa. Para sempre.
sábado, 15 de setembro de 2012
Viajando
Entrámos no autocarro, estava cheio, como sempre. Eu ainda era novata nisto de andar de transportes públicos, estava habituada ao conforto do meu carro onde nao tinha de me preocupar com a mala, com ser roubada, com levantar-me para dar lugar aos idosos.
Mas tu nao. Para ti, era só mais uma viagem, mais uma no meio de tantas outras. Conduziste-me para os bancos do fundo, para que nos sentássemos pois o nosso destino estava ainda há muitos minutos dali. Eu segui-te, a medo, "devíamos ficar ao pé do condutor caso nos tentem roubar", pensava eu. Mas estava tao cansada, queria tanto sentar-me e eram os únicos lugares vagos... Resolvi arriscar, afinal de contas, seria um grande azar ser roubada logo da 1a vez que ia para os lugares traseiros.
Falávamos alegremente, de tudo e de nada, com aquela cumplicidade de quem já se conhece há muitos anos. Estava contente por estares ali. Detestava andar sozinha, era demorado e aborrecido. Mas mais do que isso, gostava de passar tempo contigo, só nos dois. Nunca te disse, mas quando estamos nos, sinto que és mais tu, que te libertas. Secalhar nao, secalhar é uma invenção da minha cabeca só porque é agradável pensar desta maneira. Mas talvez, só talvez, tenha um pouco de verdade.
Entre nos, o silencio nunca foi nada de desconfortável, era tao normal como estarmos a falar. Observávamos os dois as pessoas estranhas que entravam ali. Bastava um olhar para sabermos o que outro pensava. E num ápice, as gargalhadas invadiam o autocarro. Lembro-me de ver as pessoas a olhar para nos e perguntar-me se elas sabiam o que era ter um amigo assim. Se sentiam este à vontade com alguém, como eu sentia contigo.
Nós conseguíamos falar sobre a filosofia da vida, sobre assuntos sérios e profundos (para adolescentes da nossa idade, que na verdade nao tem nada de sérios e profundos) tao facilmente como quando falávamos sobre memórias da nossa infância ou como quando dizíamos um monte de disparates que ninguém percebia. Era como se entrássemos no nosso mundo.
Apesar do tempo da viagem ser enorme, contigo pareciam ser só 5 minutos. Se eu tivesse tido um dia horrível, sei que naquela viagem me irias fazer esquecer de tudo, e se te pedisse, dar-me-ias a tua visão do mundo enquanto olhavas pela janela, tal e qual um filme.
Já tive varias companhias de autocarro mas nenhuma se compara a tua. Porque foi ali que eu te conheci realmente, o ponto de viragem, a altura em que me apercebi que eras um amigo que eu nao queria perder, que eu queria que estivesse no meu casamento dali ha vários anos.
Sabes, só o teu nome traz-me uma enchente de memórias tao variadas e eu adoro isso. E mais do que isso, gosto de nao precisamos de palavras para nos percebermos. Quando estamos no autocarro, ou na loja dos peixinhos ou até no jardim, o resto do mundo some-se e ficamos só nos, na nossa realidade propria, parva e feliz. Tens esse dom, deixas-me com um sorriso sem qualquer esforço. E o melhor de tudo, é que sei que estarás sempre aqui, tal como eu estarei para ti. E não porque mo disseste, mas sim porque a nossa história grita-o por ti.
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