sábado, 15 de setembro de 2012

Viajando

Entrámos no autocarro, estava cheio, como sempre. Eu ainda era novata nisto de andar de transportes públicos, estava habituada ao conforto do meu carro onde nao tinha de me preocupar com a mala, com ser roubada, com levantar-me para dar lugar aos idosos.
Mas tu nao. Para ti, era só mais uma viagem, mais uma no meio de tantas outras. Conduziste-me para os bancos do fundo, para que nos sentássemos pois o nosso destino estava ainda há muitos minutos dali. Eu segui-te, a medo, "devíamos ficar ao pé do condutor caso nos tentem roubar", pensava eu. Mas estava tao cansada, queria tanto sentar-me e eram os únicos lugares vagos... Resolvi arriscar, afinal de contas, seria um grande azar ser roubada logo da 1a vez que ia para os lugares traseiros.  
Falávamos alegremente, de tudo e de nada, com aquela cumplicidade de quem já se conhece há muitos anos. Estava contente por estares ali. Detestava andar sozinha, era demorado e aborrecido. Mas mais do que isso, gostava de passar tempo contigo, só nos dois. Nunca te disse, mas quando estamos nos, sinto que és mais tu, que te libertas. Secalhar nao, secalhar é uma invenção da minha cabeca só porque é agradável pensar desta maneira. Mas talvez, só talvez, tenha um pouco de verdade.
Entre nos, o silencio nunca foi nada de desconfortável, era tao normal como estarmos a falar. Observávamos os dois as pessoas estranhas que entravam ali. Bastava um olhar para sabermos o que outro pensava. E num ápice, as gargalhadas invadiam o autocarro. Lembro-me de ver as pessoas a olhar para nos e perguntar-me se elas sabiam o que era ter um amigo assim. Se sentiam este à vontade com alguém, como eu sentia contigo.  
Nós conseguíamos falar sobre a filosofia da vida, sobre assuntos sérios e profundos (para adolescentes da nossa idade, que na verdade nao tem nada de sérios e profundos) tao facilmente como quando falávamos sobre memórias da nossa infância ou como quando dizíamos um monte de disparates que ninguém percebia. Era como se entrássemos no nosso mundo.    
Apesar do tempo da viagem ser enorme, contigo pareciam ser só 5 minutos. Se eu tivesse tido um dia  horrível, sei que naquela viagem me irias fazer esquecer de tudo, e se te pedisse, dar-me-ias a tua visão do mundo enquanto olhavas pela janela, tal e qual um filme.   
Já tive varias companhias de autocarro mas nenhuma se compara a tua. Porque foi ali que eu te conheci realmente, o ponto de viragem, a altura em que me apercebi que eras um amigo que eu nao queria perder, que eu queria que estivesse  no meu casamento dali ha vários anos. 
Sabes, só o teu nome traz-me uma enchente de memórias tao variadas e eu adoro isso. E mais do que isso, gosto de nao precisamos de palavras para nos percebermos. Quando estamos no autocarro, ou na loja dos peixinhos ou até no jardim, o resto do mundo some-se e ficamos só nos, na nossa realidade propria, parva e feliz. Tens esse dom, deixas-me com um sorriso sem qualquer esforço. E o melhor de tudo, é que sei que estarás sempre aqui, tal como eu estarei para ti. E não porque mo disseste, mas sim porque a nossa história grita-o por ti.

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