quarta-feira, 19 de setembro de 2012

once again

É engraçado como ao ler "O diário de Anne Frank", escrito por uma menina numa situação completamente oposta à minha e há tanto tempo atrás, eu me consigo identificar com ela. Anne Frank, refere várias vezes que se sente deslocada, incompreendida, num lugar errado até. Nem com a própria familia se identifica. Daí refugiar-se nos livros e na escrita, tal como eu.
Nunca tinha ido a um velório ou a um funeral. Já sabia que não ia ser agradável, mas nunca esperei que fosse tão mau. Especialmente o velório. O propósito do velório não é seguido, as pessoas vão lá e só falam umas com as outras, das banalidades da vida - o que me irrita. Eu percebo que estar lá o tempo todo a falar do sucedido seja dificil e suponho que as pessoas se tentem distrair mas sendo assim, para que toda aquela "cerimónia" (que nome é que se dá a isto? cerimónia soa tão errado).
Posso não ter conseguido estar na sala onde estava o caixão, ou ter destapado para "me despedir" ou ter chorado e gritado. Ou melhor, não o fiz à vista dos outros. Sentei-me no meu canto, sozinha e calada. Quando ninguém estava a ver, deixei que as lágrimas caissem. A minha ideia de despedida, foi feita tanto atraves das palavras como de pensamentos.
No teu funeral, só eu ia de preto. Havia pessoas com peças de roupa preta, mas totalmente, apenas eu. Ao principio estranhei até a avó dizer "ela não queria que eu me vestisse de preto" e pensei se te desagradaria que eu estivesse de preto. Mas por outro lado, eu estava de vestido e eu sei que sempre me adoraste ver de vestido.
É mais fácil estar sozinha, chorar sem ninguém ver. Não consegui estar lá quando abriram o caixão, sempre que vejo a avó chorar só me apetece fugir quando sei que tenho de ficar e dar-lhe força. Tenho 16 anos (quase nos 17) e era de supor que já fosse crescidinha para estas coisas. Mas não sou. A verdade é que não sou e não sei lidar com isto. Aposto que ninguém sabe mas fazem um trabalho melhor que o meu.  
Já li diversos livros em que as pessoas escrevem para os falecidos e, embora sempre tenha achado que fazia sentido, agora que o faço acho ainda mais. É a única forma que eu encontro para aceitar esta situação. Mal choro, acho que ainda estou em choque e tenho a sensação que é daqui a uns dias que vai realmente doer. Adorava preparar-me para isso mas novamente, não há maneira.
Percebo-te Anne Frank. Percebo o que sentias quando dizias que te sentias deslocada, eu também me sinto assim. Percebo que escrevesses, sabendo que ninguém iria ler as tuas palavras (embora tenham sido lidas por praticamente todo o mundo). Ou talvez, se aquela história da reencarnação é verdade, talvez eu tenha sido tu e daí perceber-te tão bem. De qualquer maneira, aposto que nos teríamos dado bem.
Não consigo parar de pensar no que estava escrito nos folhetos ou o que quer que se chama aqueles papelinhos e que foi dito pelo padre na tua missa - que tenho de referir que foi realmente bonito - e sendo assim, resolvi passa-lo também para aqui.

A morte nada é

Eu estou apenas do outro lado
Eu, sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
continuaremos a ser.
Chamem-me como sempre me chamaram.
Falem-me como sempre me falaram.
Não mudem o tom da vossa voz,
não façam ar solene ou triste-
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir.
Brinquem, sorriam, pensem em mim. Que
o meu nome seja pronunciado em casa
como sempre foi: Sem qualquer ênfase.
Sem qualquer sombra.
A Vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O "fio" não foi cortado.
Porque é que eu estando longe do vosso
olhar estaria longe do vosso pensamento?
Espero-vos, não estou muito longe,
somento do outro lado do caminho.
Como vêem
está tudo bem.

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