domingo, 16 de setembro de 2012

Ester

Toda a gente tem um nome que nao gosta, um nome com o qual os colegas gozam e do qual se envergonham. Supostamente o teu, era o meu nome que se enquadrava nessa categoria. Mas eu nunca o vi dessa forma. Desde pequena, quando gozavam com o nosso nome, eu simplesmente sorria e dizia "é o nome da minha bisavó e tenho muito orgulho em ter o mesmo nome". Apesar de ser um nome invulgar, era impossível eu nao o amar, como te amo a ti.
Apesar das inúmeras rugas que se observam na tua cara, eu sempre te achei linda. Os teus olhos amáveis, as tuas mãos frágeis, a tua pele que cheirava sempre a creme de rosas que tu insistias em por sempre, os teus braços magros que me envolviam e que ultimamente, pareciam nao me querer largar, como se fosse um ultimo abraço. 
São muitas as recordações que eu tenho de ti, sempre que ouço o nosso nome, vem-me uma nova memória. Lembro-me de ser pequena e andar sempre a cantarolar e a dançar pela sala e tantas vezes que já estava cansada mas continuava a fazê-lo, só para ver o teu olhar e o teu sorriso babados. As vezes, perguntavas-me se eu já tinha ido ao baile e dizias-me que tinha de levar um bom rapaz e que tinha de ser bonito e tratar-me bem, eu ria-me e dizia-te que já nao haviam bailes e que ia arranjar o melhor rapaz que houvesse e que serias a primeira a conhece-lo. Um destes dias, vieste-me perguntar se eu tinha namorado e sem esperares que eu respondesse acrescentaste "tens de arranjar um bom rapaz" e eu sorri novamente e disse "claro que sim e vais ser a primeira a conhece-lo" e tu pegaste-me na mao e olhaste para mim: "posso já nao estar aqui quando isso acontecer". Sinceramente já nem sei se o disseste em voz alta ou se foi apenas o teu olhar que me transmitiu a mensagem. Só sei que me ensinou o significado da expressão "partiu-me o coração".
Tenho de te pedir desculpa. Desculpa por ultimamente nao te ter ido visitar com muita frequencia. Das ultima vezes que fui, contigo ja tao franquinha, quase sem te conseguires mexer, e a avo te perguntou "sabe quem ta aqui?" e tu disseste "a minha menina" tao baixinho e como se te tivesse custado o mundo e ao mesmo tempo tao feliz... Deu cabo de mim. E eu sou fraca. E nao  consegui suportar ver-te assim. Desculpa. Eu só nao queria que me visses chorar, nao queria causar-te mais dor do que aquela que transparecia pelo teu corpo. 
É demasiado difícil ver-te assim, mesmo sabendo que já tens 96 anos. Os médicos dizem que temos de nos preparar, mas isso é uma coisa que eu nunca vou saber fazer. Mas ambas sabemos que é o melhor para ti. Nao te preocupes, eu vou cuidar bem do nosso nome, com todo o carinho. Descansa em paz.
Adoro-te bisa. Para sempre.




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